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Racismo no Futebol Sul-Americano: Quando a Cegueira das Autoridades Alimenta a Impunidade

Na última semana, o futebol sul-americano foi palco de mais um episódio lamentável de racismo. O atacante Luighi, do Palmeiras, sofreu ofensas racistas durante uma partida da Libertadores Sub-20 contra o Cerro Porteño, no Paraguai. Torcedores imitaram sons de macaco e cuspiram na direção do jogador. Um crime, que mais uma vez escancarou a falha estrutural das entidades que deveriam combater a discriminação no esporte.

Manifestação da torcida do Palmeiras contra o Racismo em jogo pelo campeonato paulista. Foto: Danilo Yoshioka


A resposta da CONMEBOL? Uma multa de US$ 50 mil ao Cerro Porteño e uma “determinação” para que o clube realize uma campanha de conscientização. Ou seja, uma punição financeira irrisória e uma ação simbólica, que em nada impede que esses atos se repitam. Para piorar, no sorteio da fase de grupos da Libertadores, o presidente da entidade, Alejandro Domínguez, conseguiu piorar ainda mais a situação ao soltar uma frase que beira o absurdo: ao ser questionado sobre a possibilidade de clubes brasileiros deixarem a competição em protesto contra o racismo, ele disse que uma Libertadores sem brasileiros seria “como Tarzan sem Chita”.

Para quem não se lembra, Chita era um chimpanzé na franquia cinematográfica de Tarzan. E é aqui que o problema se agrava. No contexto de um debate sobre racismo no futebol, o chefe da entidade máxima do esporte sul-americano usou, intencionalmente ou não, uma comparação que remete diretamente a um dos insultos racistas mais comuns contra atletas negros.

O mínimo esperado após esse tipo de declaração seria um posicionamento firme e ações concretas da CONMEBOL para erradicar o racismo. Mas não. Domínguez limitou-se a dizer que usou “uma frase popular” e pediu desculpas, como se isso fosse suficiente para apagar as palavras proferidas.

A reação da presidente do Palmeiras, Leila Pereira, foi imediata e certeira: “Confesso que custei a acreditar. Achei até que pudesse ser Inteligência Artificial. Aliás, pensando bem, nem mesmo a Inteligência Artificial seria capaz de produzir uma declaração tão desastrosa quanto esta. Se as pessoas que comandam o futebol sul-americano nem sequer sabem o que é racismo, como serão capazes de combatê-lo?”.

E essa é a pergunta central de toda essa discussão. Como combater o racismo quando aqueles que estão no poder nem sequer reconhecem o que é o racismo? Como punir atos racistas se as sanções são brandas, superficiais e desprovidas de impacto real?

O futebol, como reflexo da sociedade, continua sendo um ambiente onde o racismo se perpetua pela conivência das autoridades e pela passividade de quem deveria liderar mudanças. O problema, porém, não está restrito ao esporte. O racismo está enraizado na estrutura social e se manifesta em todos os espaços: nas arquibancadas, nos gramados, no mercado de trabalho, na educação e nas interações cotidianas.

A cada novo caso de discriminação, escutamos as mesmas promessas de combate ao racismo, os mesmos discursos vazios e as mesmas sanções ineficazes. Mas a realidade continua inalterada. Jogadores negros seguem sendo alvos de insultos, a impunidade segue reinando e os responsáveis seguem blindados por um sistema que normaliza a discriminação.

Até quando? Até quando aceitaremos a desculpa da “frase popular”? Até quando vamos tolerar que a punição para o racismo seja apenas uma multa que clubes pagam sem qualquer impacto real? Até quando permitiremos que as autoridades do futebol — e da sociedade como um todo — tratem o racismo como um problema menor, uma “polêmica”, e não como a violência estrutural que de fato é?

É urgente que os clubes brasileiros se posicionem de forma mais firme. A ideia de abandonar as competições da CONMEBOL não pode ser descartada, pois a manutenção de nossa participação sem mudanças estruturais significa compactuar com um sistema falho. Se a entidade não se mostra capaz de garantir um ambiente livre de racismo, talvez seja hora de buscar outras alternativas.

Mas essa luta vai além do futebol. Como sociedade, precisamos sair da indignação vazia e partir para a ação concreta. A cobrança por punições severas deve ser constante. As vozes contra o racismo precisam ser amplificadas. Não podemos mais permitir que o esporte, que deveria ser um espaço de união e celebração, continue sendo palco para atos criminosos de intolerância racial.

A frase de Domínguez foi infeliz, mas o maior problema é que ela reflete a postura de muitas lideranças: a falta de compromisso real com o combate ao racismo. E enquanto essa mentalidade persistir, novos casos continuarão a acontecer, novas vítimas continuarão a surgir, e o futebol sul-americano seguirá manchado pela vergonha da impunidade.

O racismo não pode ser tratado como uma questão secundária. Ele precisa ser combatido com força, urgência e responsabilidade. O que aconteceu com Luighi não pode ser apenas mais um caso para estatísticas. Precisa ser um divisor de águas. Ou mudamos essa realidade agora, ou aceitaremos, mais uma vez, que o futebol — e a sociedade — sigam sendo coniventes com a discriminação.